Thursday, March 17, 2016

O Professor e a Cadeirante (Parte 4)



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Parte 4

Marcos era um cara ponderado e gostava de conhecer coisas novas, então, quando começava a ler um livro, ele não abria com o conceito pronto.  Quando abriu o livro, achou que era mais um livro de um escritor deficiente que queria desabafar algo sem proposito dentro da sua vida medíocre, reles engano. Ele entendeu perfeitamente o mundo do deficiente e o que há no seu pensamento, nos seus sentimentos e em todo o caminho que levou a aquele trabalho. Mas o que realmente poderia ser tão pior do que existir leis e ver nenhuma ser respeitadas? Como é ver um mundo que diz que você tem o direito à vida e não te dá o mínimo para viver? Como é ver sua própria namorada ser assediada bem perto de você? Tudo isso estava lá no livro.

Daí Marcos pensou: “realmente essas pessoas querem ser ouvidas e não são ouvidas, pois as vozes são abafadas por uma cultura inútil que não traz nenhum conhecimento. Que conhecimento se pode ter em livros sem conteúdo? Que conhecimento tem várias redes sociais que não trazem esse conhecimento ao público? Esse livro é importante para entender como vivem os deficientes dentro de uma sociedade confusa, com uma cultura bilateral, uma dicotomia que não faz sentido e alimentada por intelectuais que alimentam essa dicotomia.”. Marcos não acreditava que eles ficaram assim por ter feito algo em uma outra vida, não acreditava que se tinha traçado esse tipo de coisa dentro do destino. Mas achou interessando o diálogo do livro sobre isso, a teoria do banco que dês da fábrica estava condicionado a Vanessa (personagem principal), a sentar ali e conhecer Vladimir. Será mesmo que somos destinados a conhecer as pessoas que devemos conhecer? Será que ele estava destinado a conhecer Alice? Marcos sempre revia as suas convicções, pois sabia que o universo era muito grande para temos uma certeza absoluta.

Talvez, Marcos viu muito mais do que um mero romance, mas também um livro de filosofia, um livro sobre políticas inclusivas de deficientes. Não tinha nenhuma política de verdade, só tinha discurso demagogo, onde eles não podem trabalhar e nem estudar, pois não existem políticas para incluir essas pessoas nem no ensino e nem no mercado de trabalho. Aquilo era um grito daqueles que estudam e não podem trabalhar, gastam horas em um curso, gastam dinheiro em livros e depois os empresários ainda dizem que essas pessoas não eram qualificadas. Como não são se o próprio autor, que era publicitário e TI (técnico de informática)? Muito estranho um país como o nosso, com tantos recursos naturais, tenha tantos descasos e tão pouca políticas públicas para essa parcela muito esquecida.

Essa parte do livro não seria só uma questão humanitário, mesmo o porquê, dentro das convenções da ONU e dentro até da constituição federal, não havia só o direito à vida, havia sim, o direito de ir e vir. Talvez por entender isso, por entender que o autor estava dizendo que os deficientes teriam o direito à vida e a liberdade, que Alice fez a pergunta: “onde está a liberdade? ”. Liberdade que não existe para os deficientes, liberdade que não haveria de existir a ninguém e que os pastores anulavam num modo religioso. A inclusão não é um ato só humanizado, mas um ato ético que valoriza o ser humano que só tem uma limitação. Mesmo assim, é um ser humano como qualquer um.

- Querido, quer tomar um chá? – Disse a mãe de Marcos – Acho que você encontrou uma causa ótima para defender, essas pessoas são carentes de alguém tenha algum olhar sobre elas. Bom esse livro? Onde pegou?

-- Sim mãe, eu peguei com uma colega na instituição onde a senhora sugeriu. Estou gostando muito desse tema e estou gostando muito de conhecer o mundo deles, porque tem a ver com a ética e toda a sua nuance. Esse livro chama O Caminho e o autor, pelo que pesquisei, também é deficiente e formado em publicidade, mas as agências de publicidade não quiseram pega-lo, mesmo mandando currículo.

-- Nossa – a mãe dele disse com um ar indignada – esse país está cheio de preconceito e egoísmo. O que custava ter dado chance ao rapaz? Mas o que parece, pelo que estou vendo, pelo menos, ele está investindo o que gosta e a escrita é uma das dadivas que Deus pode nos dá. Depois você me empresta o livro?

-- Tem cenas fortes, dona Isadora – disse Marcos com uma risada irônica.

-- Ora Marcos, já li coisas piores e nada nesse mundo me choca. Esqueceu que além de ser psicóloga ainda trabalho na área social? – Disse dona Isadora olhando atentamente seu filho – Gosto de ler coisas desse tipo para mim fazer o perfil dos deficientes que estou atendendo lá aonde trabalho.

-- Por mim, tudo bem. Eu acabei de ler e fazer algumas anotações sobre. Interessante o livro e tem muito a ver com que os deficientes vivem mãe, porque até assediados eles são e pelo que li, existem muitas mulheres com deficiência sendo estupradas e nesse livro, existe alguma coisa sobre.

Dona Isadora deu um sorriso e pegou o livro, foleou e levou, enquanto saia do quarto. Marcos como sempre, ficou pensando o que leu e retomando suas ideias quanto a ética, enquanto a realidade que não poderia ser real, ou a possibilidade daquela moça que Alice disse, ser mais uma mulher com deficiência a ser bolinada e na pior das hipóteses, ser estuprada. Mas como alguém é estuprado dentro de uma instituição no qual, deveria zelar pelo bem-estar delas? Alice deu seus contatos e deu o seu celular e assim, poderiam se comunicar no Wattsapp.

marcosfilosofo- 011984123939
Alice você está online?

Espero um pouco, mas demorou para vir a resposta e ele se perdeu nos seus pensamentos: “Aquela mocinha estava muito quieta com um ar de sofrimento. Será que isso pode ser considerado um sinal disso? Tenho medo de perguntar para minha mãe e não poder abrir o jogo para ela, não poder dizer que estou numa investigação que poderei entrar numa coisa muito grande”. De repente o telefone assobia:

alicepaismaravilha – 01198873636
Estou lendo um livro interessante. Já leu Como eu era antes de você?

marcosfilosofo- 011984123939
Ainda não, mas eu lerei...fala sobre o quê?

alicepaismaravilha – 01198873636
Fala de uma moça que vai cuidar de um tetraplégico que quer se matar por causa de sua deficiência, e sua mãe, pede seis meses de prazo. Eu não terminei ainda, mas é interessante.

marcosfilosofo- 011984123939
hummmm...eu lerei, estou querendo mesmo ler bastante sobre a deficiência e será uma leitura muito interessante. Eu acabei o livro e emprestei para minha mãe, achei que ela deveria ler por trabalhar na área social.

alicepaismaravilha – 01198873636
O que achou do livro?

marcosfilosofo- 011984123939
Bem estruturado e tem assuntos bem interessantes, pois trata muito de filosofia e outros assuntos que entram a ética.

alicepaismaravilha – 01198873636
Acho que o autor transmitiu muita coisa que estava sentindo e suas frustrações diante da vida, como nunca ter conseguido ser publicitário ou ter uma vida que não gostaria de ter. Mas por outro lado, ele fez denúncias importantes dentro do tema. Achei bastante interessante, pois colocou até o tema do assedio dentro da deficiência ele colocou e isso é importante, pois somos muito assediadas.

marcosfilosofo- 011984123939
é mesmo? Você também foi assediada aí?

alicepaismaravilha – 01198873636
Sim. Por muitos enfermeiros que nos tocam com malicia com a desculpa de que estão examinando e não podemos dizer a ninguém, porque senão, Dona Clara fica brava. Não vai contar a ninguém, vai?

marcosfilosofo- 011984123939
não se preocupe, não contarei para ninguém que tivemos essa conversa, pois queria ter certeza das minhas suspeitas. Vou ter que sair um pouco, bjos

alicepaismaravilha – 01198873636
tá bom...bjos


CONTINUA

Thursday, March 10, 2016

O Professor e a Cadeirante (Parte 3)





Marcos não se deu por satisfeito pela pesquisa que fez sobre deficiência e nem esqueceu da pergunta do seu aluno sobre o mal e as consequências desse mal em nossas vidas. Será mesmo que há uma origem metafisica do mal ou é algo totalmente humano? Como podemos aceitar que tantas pessoas passem por tantas coisas por simples vida biológica terráquea? Ao ver tantas pessoas largadas em instituições com suas deficiências, tantas pessoas que não tem a menor dignidade de ter um transporte público adaptado e de qualidade e ainda, temos que dar milhões a instituições que não fazem nada, por causa de uma saúde falida, não é possível que não haja uma explicação muito mais profunda. E nessa profundidade que reside a questão que não tem uma resposta definitiva a questão. 

Acessou o site da instituição onde é voluntario e viu sua história, como era cético, resolveu investigar os envolvidos disso tudo que te encheu com muitas dúvidas dentro da questão. Então pensou: “por que será que dona Clara tentou não deixar eu conversar com Alice? O que tem por traz daquilo? Porque não é logico, alguém largar seu próprio filho em instituições que só cuidam da parte física e muito menos cuidam da parte, mental”. Na verdade, Marcos estava confuso com algumas questões sobre moral, sobre o que seria o bem e o mal, sobre as inúmeras questões que gostava de investigar, era um filósofo com diploma, seria de sua natureza. 

Como estuda filosofia, sabe que a questão do bem e a questão do mal é bem salientada dentro de Agostinho de Hipona, que a igreja católica o transformou em Santo Agostinho. Santo Agostinho dizia que o problema do bem e do mal é totalmente, humanos. Por que? Para Santo Agostinho, o bem como algo a fazer para o próximo – como uma manifestação da bondade verdadeira no qual, Sócrates de Atenas compactuava – era uma coisa do espirito, pois o bem era algo além da moral humana. O mal, por sua vez, era algo egoísta que vinha do lado material do homem como algo que somente buscava o lado do ouro, o lado da gloria (que vem a vaidade), que faria o homem a alcançar isso a qualquer maneira possível. Não é à toa, que a igreja diz que quem é egoísta e mesquinho – que cai no pecado capital da avareza - não entra no reino dos céus e isso também, graças a Agostinho muitos dogmas teológicos são sim platônicos ou neoplatônicos, o bem sublime era motivo para ir até os céus (que era uma cópia do mundo das ideias platônico). 

Então, Marcos pensou: “Por que essa gente tanto nasce com deficiência e o porquê essas pessoas não têm liberdade? Pois, pelo que vi na instituição, não existe liberdade e muitas outras pessoas, vê essas pessoas como apenas pessoas com limitações mentais e físicas que, as vezes, só existe uma limitação física. Por que então, dona Clara, fala com tanto escarnio da inteligência da Alice? ”. Marcos não percebeu, mas dona Clara como todo mundo lá, via essas pessoas como pessoas limitadas que não poderiam pensar, não poderia sentir, não poderiam tomar decisões pela própria vontade. Eram “pobres almas”, talvez pagando pelos pecados dos pais, ou pagando por coisas que nem lembram, isso não poderia existir e se existe deveria ter um porquê. As pessoas tinham uma certa piedade com essas pessoas, porque sempre via nas suas redes sociais, pessoas deficientes que não podem nem expressar nada, ao lado de bíblias e muito pior, mães achando no direito de filmar tomando banho. 

Eram respostas muito complexas para serem respondidas apenas em uma hora de pesquisas, precisava ver mais e ler mais para entender tal situação. Deu a hora de ir à instituição, era sábado e não poderia perder por nada a oportunidade de conversar de novo com Alice. Por que todo aquele interesse? Por que tanto, Alice te atraiu com aqueles olhos castanhos com de mel? Marcos não sabia que essas pessoas eram nitidamente, pessoas que poderiam sentir e nunca pensaria em ficar tão fascinado por um deles, já que, como toda a sociedade, achava que eles (os deficientes), eram pessoas bastante limitadas. Mas tinha que ir a tal instituição, era um compromisso, e para Marcos, compromissos eram coisas para serem cumpridas eticamente. 

Ao chegar a instituição não pode negar que estranhou quando entrou numa grande entrada na frente. Embora todo ano a instituição pedisse dinheiro em doações, em um programa de TV, a instituição era bastante grande e luxuosa com cafezinho para os médicos e muitas celebridades fazendo tratamento lá. Era uma contrariedade dentro de tudo que dizem de lá, que é um lugar pobre e sem dinheiro nenhum, sendo que muitas pessoas, nem tratamento adequado tiveram ao longo da existência da instituição. Mas o que mais intrigava era a maneira que tratavam aquelas pessoas que não eram deficientes mentais – pelo menos era isso que Marcos constatou ao andar na instituição – pois eram pessoas que sabiam pensar e sabiam o que estavam sentindo. Mas o que poderiam fazer para reverter tudo isso? O que poderiam fazer para lutar contra uma instituição que mais inibe suas ideias, inibe a sua própria liberdade? O que é a “verdadeira” liberdade?

Ele viu o quarto de Alice com a porta fechada, não entendeu o porquê, mas entendeu que Alice, talvez, quisesse ficar sozinha e que não quisesse que as pessoas invadissem sua privacidade. Mas viu Dona Clara saindo do quarto de Alice com um semblante sério, sem aquele sorriso que queria passar como uma mulher calma, uma mulher pacifica. Então, Marcos como era bastante esperto, se escondeu atrás de uma parede que ficava no corredor da entrada que dava ao corredor do quarto de Alice, assim, Dona Clara não o viu. Claro que era questão de tempo, afinal, a mulher tinha toda a planilha dos horários que os voluntários iriam chegar, Marcos se adiantou um pouco para conversar com Alice. 

-- Oi Alice – disse abrindo um pouquinho a porta – posso entrar? – Reparou que os olhos de Alice estavam molhados e assim, pegou um pedaço de papel e fechou a porta. Marcos não queria chamar atenção com a chegada dele na instituição e nem entrando no quarto de Alice, pois a Dona Clara, com aquele rosto de “boazinha”, não deixaria conversar com ela de jeito nenhum. 

-- Oi, Marcos. Desculpe por me ver assim, mas fiquei muito chateada com uma situação que me aconteceu hoje. Porque meus pais sempre vêm me ver no domingo, que é amanhã, mas vão ficar de férias e não vão nem me ver e muito menos, me levarem. Estarei aqui, lendo meus livros e aguentando Dona Clara com suas filosofias religiosas insuportáveis. Quando viverei longe de tudo isso? Quando viverei a verdadeira liberdade?

-- Olha, Alice – Marcos tentou ir com cuidado para não chatear ainda mais Alice – não sei o que pensa sobre liberdade, mas eu penso que o ser humano tem o direito de escolher e de ter livre-arbítrio. Você também tem um livre-arbítrio e deve de todas as maneiras, usar esse livre-arbítrio, mesmo que se sinta impotente e desamparada. 

-- Mas o que é liberdade se não posso nem sair daqui? Como posso dizer se tenho ou não livre-arbítrio, se não posso nem conversar com quem eu quero? Outro dia, estava conversando com um amigo, Dona Clara simplesmente, me puxou e disse que não poderia conversar com o Lucas, porque o Lucas era homem. Bom, eu não duvido que Lucas seja homem, mas graças a falta de instrução a filosofia daqui, que nós deficientes somos eternas crianças, Lucas pode ser considerado um menino grande, ingênuo. Como pode haver tanta maldade nas pessoas?

-- O que você vê como maldade, Alice? Como você enxerga que as pessoas não veem vocês como pessoas? – Marcos estava sentado com as pernas cruzadas em uma poltrona verde musgo, olhando muito fixamente para Alice para ver sua reação. Estava com a mão direita em seu rosto como apoio, como se quisesse fazer Alice perceber algo. 

-- Que as pessoas são ignorantes na matéria deficiência, isso é bem claro que não pode ser negado, mas há distorções muito grandes. Muitos aqui têm a mesma deficiência, como eu que nasci, ou melhor, me tornei deficiente graças a falta de pediatra dentro da sala de parto. Os próprios médicos nem sabem qual deficiência tem certas características, outras deficiências, tem outras características e não somos iguais. Mas eles insistem que somos, que até mesmo, temos o mesmo CID. Definidamente, meu amigo, não temos realmente liberdade de nada aqui, nem mesmo, para ter uma conversa.

 Marcos, então, pensou: “Ela está muito apreensiva e desnorteada, acho eu, que aconteceu mais do que está falando.”. Então disse:

-- Estou reparando que você está muito nervosa com tudo que anda acontecendo aqui, sei muito bem, que não é só isso que está acontecendo. Já leu Immanuel Kant? – Alice faz um sinal de negativo com a cabeça – Bem, trarei para você ler um clássico dele que se chama: “RESPOSTA A PERGUNTA: O QUE É O ILUMINISMO? ”, onde em algumas edições, está “o que é o conhecimento”. Alice, para os iluministas o conhecimento era a chave para essa ignorância dentro da sociedade da época, que não era muito diferente da atual, era um bando de fanáticos religiosos querendo sempre dar uma explicação para fenômenos cientificamente, explicáveis. No caso de vocês, os deficientes eram tidos como criaturas impuras graças ao livro do velho testamento, o Levítico 21 onde diz: “Nenhum homem que tenha algum defeito poderá aproximar-se: ninguém que seja cego ou aleijado, que tenha o rosto defeituoso ou o corpo deformado; ninguém que tenha os pés ou as mãos defeituosos, ou que seja corcunda ou anão, ou que tenha qualquer defeito na vista, ou que esteja com feridas purulentas ou com fluxo, ou que tenha testículos defeituosos.”. Imaginou o que acontecia, Alice? Muitos de vocês eram queimados ou jogados em quartos abandonados, como na obra de Umberto Eco “O Nome da Rosa”, que em outra oportunidade te explicarei o porquê desse nome, onde o corcunda era criado na igreja, mas era jogado em um lugar onde ninguém pudesse ter um maior contato com ele. 

Alice ouvia com atenção e calma, então Marcos continuou:

-- O iluminismo é a resposta a isso porque o ser humano tende sempre a ser acomodado, nunca sairá desse estado sozinho. A resposta de Kant a isso é bem interessante, pois o homem está nesse cômodo intelectual porque é acomodado, gostou da sua condição e quer ficar assim. Tanto é, que o filósofo diz em seu texto que o homem não quer sair disso. Não há pessoas religiosas que não questiona suas crenças? – Alice fez positivo com a cabeça – Então, em tudo o homem é acomodado e tem vícios que não podem deixar ou não querem deixar, porque assim, não teriam meios de se fazerem de “vitimas” de uma sociedade “maldosa” e insana. Para Kant, não existe o mal ou bem, mas o ético e não ético que faz o homem um ser de caráter, mas não um ser metafisico que faz fazer isso. Para Kant, não existe nenhuma decisão se não for pela sua própria vontade, pois, até mesmo as mulheres sendo violentadas, para Kant, tinham o dever moral de se defender de tal violência. Para os iluministas, o conhecimento é tudo que podemos ter para ter uma melhor decisão no futuro. 

Alice olhou para Marcos fixamente e entendeu o que ele quis dizer com aquilo, pois ela tinha o conhecimento e poderia fazer a diferença diante de tudo que vivera nestes últimos tempos:

-- Interessante Kant, eu irei ler mais sobre esse texto e espero encontrar mais coisa na internet, que ainda não cortaram, mas que tomarei cuidado para não acharem que quero revolucionar o negócio aqui. E por falar em violentar – Alice abaixou a voz enquanto confidenciou algo para Marcos – no quarto ao lado a menina bonitinha fica gritando um “para” e simplesmente, acho, que Dona Clara sabe do B.O, porque teve um dia que não pudermos sair do quarto e ele ficou com a menina querendo saber quem foi. Ouvi tudo, ela ameaçou a menina se ela falasse algo aos parentes e a menina chorou. 

Marcos ficou horrorizado, mas não se surpreendeu, porque com nossa sociedade hiper-sexualizada tinha se degenerado do surpreendente e crescente conceito de liberdade desenfreada. Mas disse: 

-- Prometo averiguar, mas deu minha hora e tenho que me apresentar para dona Clara – disse se levantando – depois trago os livros que prometi que te abrira os olhos. 

Nisso, Alice dá a ele o livro O Caminho e depois que ele agradeceu, abriu a porta e olhou nos dois lados no corredor e se despediu e saiu. Guardou o livro entre a cintura e a camiseta por cima, se apresentou a Dona Clara e reparou que na sala de recreação tinha uma menina quieta e lembrou das palavras de Alice, fez a ligação. 


Continua



COMPREM O_CAMINHO

Friday, February 26, 2016

O professor e a cadeirante (2º PARTE)







2º PARTE

Marcos tinha pensado naquela conversa dês de então e resolveu pesquisar sobre as pessoas com deficiência que lhe despertou a curiosidade e nessas pesquisas ele encontrou muitas curiosidades. Então digitou “DEUSES DEFICIENTES” apareceu muito material curioso, como que os gregos clássicos matavam os “defeituosos”,  os deficientes tinham tido uma existência da história humana como se fossem animais sem alma, maldição dos deuses ou mais ressente, por termos uma cultura conservadora, tratados como “crianças eternas”.

Mas leu que havia um deus coxo grego que tinha o nome de Hefesto. Hefesto, ou em latim Vulcano, era o deus do trabalho e da metalúrgica é rejeitado pela mãe Hera, por ser coxo, foi jogado do Monte Olimpo na ilha de Lemmos e foi criado por nereidas Tétis e Eurínome. O deus tinha grande habilidade para a forja e com isso, escondido, forjou o trono do seu pai Zeus com várias armadilhas para o mesmo ter que o soltar e foi isso que fez, sendo dês de então, os doses deuses olimpianos. Marcos então se entregou em seus pensamentos: “Não me surpreende terem tantas instituições que cuidam dessas pessoas, pois nossa sociedade ainda conservadora, enxerga como crianças eternas”.

Mas a pesquisa não parou e continuou mais e digitou “superação” eis que apareceu só atletas paraolímpicos que são um meio, mas não são a única opção para a inclusão das pessoas com deficiência. Daí começou a pensar: “Será que existe uma padronização do que as pessoas pensam em superar? Será que há um estereotipo ditado dentro da sociedade para definir o que é ou não “superar?”. Eis grandes questões que não estão excluídas dentro da moral ou dentro de nenhum pensamento sobre a ética, porque além de temos um estereotipo definido – como se não pudéssemos ter outro pensamento muito mais abrangente – e não se poderia ter outros. Foucault teria esse foco como um discurso do poder, um discurso que o poder colocaria como algo para dominar.

Já tinha dado 10: 00 horas da manhã e teria que ir dar aula na escola que era professor substituto de filosofia, porque o titular teve que se afastar por motivos de saúde. Dentro do carro ouvindo se rock de sempre ficava pensando o que seria tudo aquilo, o que seria a realidade e porque pessoas nasciam com deficiência e o porquê eram tão largadas sem um tratamento adequado. Mas existiam pessoas como Alice, inteligentes e sabiam se comunicar que tinham algo a nos passar, eram raras exceções num mundo obscuro por estereótipos da sociedade.

Na sala de aula, Marcos tinha uma postura calma e muito tranquila, pois dês de quando entrou, não teve problemas com os alunos. Sentado já na mesa viu um aluno levantar a mão para fazer uma pergunta e Marcos consentiu, porque sempre pensava que na filosofia o aluno tinha que ter no mínimo, liberdade para perguntar:

-- Professor, será que Deus existe mesmo? Porque vejo tantas coisas como pessoas morrendo, pessoas nascem com defeitos, pessoas andam de cadeira de rodas que até fico em dúvida se existe mesmo.

-- Não sei. Só sei das perguntas que poderíamos perguntar a um religioso que segue os ritos desse Deus. Chegamos num ponto muito mais moral do que religioso, não que a religião não tenha sua moral, mas existe uma ética acima disso muito interessante. Existem pessoas que tomam um tiro de um assaltante ou uma bala perdida, vimos isso muito nos noticiários, e fica paraplégica, ou tetraplégica, ou enfim, numa cadeira de rodas. Existem vários fatos que culminaram nisso: 1, é a questão da segurança pública que é uma questão de o executivo votar leis para melhor garantir isso. 2, é questão da desigualdade gritante que vive nosso país e isso cria uma expectativa, que é errada, que o crime pode garantir a sobrevivência do indivíduo. 3, é a questão da educação que não garante que o indivíduo aprenda que só garantindo honestamente o seu sustento é que garante sua paz, sua liberdade e respeito pela vida humana. Ora, não sabemos se Deus existe ou não, mas sabemos que cada ser humano pode fazer escolhas e essas escolhas são dentro dos seus valores morais que aprenderam.

-- Mas professor e quem, por exemplo, nasce com uma deficiência? Quem contem doenças como o câncer?

-- Espera aí, Tiago...existe duas questões interessantes dentro dessa mesma questão. O que pode desencadear uma deficiência? Coincidência ou não, nessa manhã estava eu fazendo algumas pesquisas e achei um material importante dentro da questão da deficiência, pois sou voluntario dentro de uma instituição. Na Grécia clássica, com todo aquele conhecimento e de certa forma, uma cultura elevada para a época, se matava pessoas com certas limitações por questões práticas. Pode nos ser cruel, mas é bastante plausível na época, pois numa eventual fuga, muito dessas pessoas iriam atrasar essa fuga. Mesmo assim, há uma lenda de um deus dos trabalhadores e da metalúrgica que era coxo, esse deus chama Hefesto, que era coxo. Ora, ao mesmo tempo que os gregos clássicos matavam as pessoas com deficiência, deu a um deus olímpico a limitação de uma perna. Entende? Isso são coisas muito mais relacionadas com a moral do que relacionadas com a parte religiosa da questão, porque hoje uma criança nasce doente ou deficiente, ela tem os mesmos direitos do que qualquer cidadão da humanidade e existem tratamento para isso.

Ele levantou e sentou na mesa para os alunos melhor vê-lo falando e continuou:

-- Existe um fator humano nessas duas situações, embora existam pessoas que acreditam que é escolha da alma ou é uma prova de fé dos pais e por aí vai, que fara com que muitas crianças nasçam com alguma deficiência qualquer ou até, nasça com câncer. Existe a pobreza, que ficam dependentes de um serviço médico ou hospitalar do governo de segunda qualidade. Existe fatores genéticos que podem também culminar em uma deficiência, ou fatores de doenças ou produtos tóxicos. Isso também pode ser uma das causas do câncer e assim caminha a humanidade. A questão trazida pelo nosso colega Tiago é uma questão completamente, moral para o bem ou o mal e se isso implica na existência ou não de Deus. Mas aí vou muito mais a fundo: se Deus existir, ele com sua onisciência, criou ou mal? E se o bem e o mal nada tem a ver do que observamos como atitudes e o que percebemos? A deficiência pode ser uma limitação, mas pode não limitar a felicidade, como alguns tipos de câncer ter tratamento, é uma questão de visão. Mesmo eu sendo um cara cético, eu não costumo ter uma mente fechada e sempre questiono tanto a religião, quanto as ditas descobertas cientificas, principalmente, quando essas descobertas têm a ver com nossa vida cotidiana. Podemos analisar uma coisa, uma deficiência não depende da existência ou não de Deus, mas a existência ou não da ética. Por que da ética? O ESTADO como tal, não dá garantias de um tratamento digno para todos, o ESTADO não garante que as pessoas sejam informadas sobre isso, o ESTADO não dará tratamento adequado a essas pessoas e isso, muitas vezes, fica a cargo de instituições pouco preocupam com a questão. É ou não moral Tiago? O que você acha disso?

-- Acho professor que a questão que você traz é interessante, mas acho que tem muito a ver a religião que cega as pessoas como o cientista Richard Dawkins diz nos seus livros – Marcos mesmo cético não gostava de fundamentalistas de nenhum dos lados.

-- Você sabia Tiago, que esse mesmo cientista dito biólogo, disse que é imoral a mulher ter um filho com síndrome de down? – Tiago fez com a cabeça um sinal de negativo – Pois é, esse tipo de sujeito seduz muito fácil, pessoas como você, um garoto, e fundamenta uma ideia muito agradável. Porém, nem sabe o que está dizendo, pois, o problema das guerras não é a religião, mas interesses econômicos que usam a religião como uns dos pontos, outro ponto é o nacionalismo que dês do tempo de Jesus, até antes, existem na região. Continua.

-- Se Deus existe, ele como senso bom, não deveria deixar nascer crianças com deficiência ou com doenças, talvez nem exista. – então, Marcos levantou e olhou para a classe e perguntou para a classe:

-- Mais alguém quer expressar a opinião sobre? Gostaria que alguém que acredita veemente em Deus possa refutar Tiago. – Uma aluna com cabelos compridos e uma saia comprida levantou a mão. Marcos fez um gesto com a mão para a menina levantar e falar.

-- Mas o próprio professor disse que não tem muito a ver com a existência ou não de Deus ter crianças com deficiência, é uma questão de visão como poderíamos enxergar essa opinião. Eu acredito que tudo tem um proposito e esse proposito tem a ver com a criação, tudo se fez dentro da vontade de Deus e ele enxerga tudo e vê tudo.

-- Ótimo Natália – disse Marcos com entusiasmo, pois o assunto fluía – resta saber, se esse Deus enxerga tudo, não poderia prever, por exemplo, chacinas ou matanças como o nazismo fez? Ou todas as guerras que houveram dentro do oriente médio?

-- Ah, professor...acredito que Deus deu todas as escolhas possíveis a humanidade.

-- Ótimo! Quero para sexta uma redação sobre isso na minha mesa e terá no mínimo uma folha e no máximo quantas folhas quiserem. Nada de meia folha.

Todos saíram e a aula acabou. Marcos ficou pensativo por tudo que foi falado, talvez, poderia ter uma conversa dessas com Alice.


CONTINUA 






Wednesday, February 24, 2016

O professor e a cadeirante




1º PARTE

Marcos era um professor de filosofia recém-formado e tinha o ideal a seguir. Sabia sobre a história da filosofia e junto com o conhecimento, mas não tinha a sabedoria de buscar o saber, apenas tinha a “amizade” pelo saber e a essência desse saber. Estudava muito a origem do mal, a origem do bem e todo pilar moral social que o mundo estava inserido e o porquê o ser humano pode estar rumando para o fim do mundo. Era mais um pessimista, por outro lado, era um humanista que achava que deveríamos todos ajudar a humanidade a crescer um pouco, mesmo ela (a humanidade), rumar pelo seu colapso.

Naquela manhã rumava a uma instituição de pessoas com deficiência que ficava perto do apartamento dos seus pais, não tinha ideia o que iria encontrar ali, mas tinha a certeza que nas horas vagas ele iria ser voluntario dessa instituição. Na sua visão – como na maioria das pessoas – aquelas pessoas eram sofredoras eternas que não sabiam nem o que estavam falando, era uma visão de uma pessoa que não convive diretamente com os deficientes. A um tempo atrás, já teria acertado em ser voluntario dessa instituição e não iria desistir tão fácil de levar conforto a algumas pessoas que ali estavam internadas. Ao andar no corredor – seu jeito jovem vestindo camisa xadrez vermelha e uma bermuda creme com meia e tênis – chamava a atenção de quem passava porque aqueles deficientes, não viam outra coisa além de tudo igual, os jalecos dos médicos e funcionários que trabalhavam ali. Na maioria são pessoas cuja a família não tinha condições para cuidar e alimentar aqueles seres humanos que nasceram assim, ou por uma fatalidade da vida, tiveram um acidente ou doença que o deixaram assim. Mas outros casos, que havia alguma internação, era por aparências porque a família não queria expor uma pessoa deficiente na família.

Continuando a caminhar no corredor, o rapaz olhou uma porta semiaberta que ali dentro estava uma cadeira de rodas de costas. Mas pode ver suas mãos delicadas em um livro, seus cabelos castanhos faziam o caminho do acento das costas da cadeira e sua pele claro, podia ser vista por onde quase entrou e teve medo de entrar, mas mesmo assim, bateu na porta para ver melhor aquela visão que o tinha hipnotizado:

-- Olá – disse Marcos com um sorriso sincero – sou o novo voluntario da instituição e estava passando aqui e vi você sozinha no quarto... – parou por uns instantes porque teve a sensação que estava invadindo o quarto da moça. Quando ele ia saindo todo sem graça a moça virou com sua cadeira de rodas e soltou um sorriso e pode ver seu rosto com seus olhos castanhos esverdeados e seus olhos puxadinhos.

-- Oi, não vimos muitos voluntários aqui na instituição e aqui não passa muitas coisas diferentes. Passo o dia lendo ou escutando música e não tenho muito o que fazer, meus pais me colocaram aqui e aqui estou eu lendo. – Marcos sentou na beirada da cama e começou a ouvi o que dizia a mocinha que num lapso, começou a viajar nas suas palavras.

-- Sou Marcos e sou professor recém-formado em filosofia e sempre via essa instituição e ficava pensando como poderia estar ajudando vocês de alguma maneira. Qual seu nome?

-- Me chamo Alice e estou aqui dês de quando me conheço como gente, meus pais me levam para passear, mas sempre volto aqui e fico aqui lendo. Estudei. Mas não sai daqui nunca, não sei como é o mundo lá fora, mas pelos livros acho que tenho uma ideia como o mundo é.

-- O Caminho – Marcos olhou o nome do livro – título sugestivo, mas nunca ouvi falar do autor. Mas parece bom.

-- Gosto dos diálogos do casal onde contém muitas coisas filosóficas sobre a realidade e destino, aliás, poucas coisas me trazem prazer do que ler coisas ocultas e pensamentos críticos. O autor fez muito bem reunir um livro sobre a inclusão de pessoas com deficiência e os vários assuntos universais que não estamos isentos. Acho que vou seguir a carreira de escritora e escrever assim, mostrando que não somos alienados do mundo, mas somos amordaçados por certas instituições de deficientes e várias religiosas.

-- Nossa! Pensava que vocês não podiam nem ler e nem pensar, sem ofender – ele deu um sorrisse sincero para Alice que devolveu sem nenhum sinal de ter ficado nervosa – mas é isso que pensamos quando vimos programas de TV que mostram a dependência dos deficientes. Achei interessante...depois você pode me emprestar? Acho que vou procurar o site e comprar um também, pois quero aprender muito sobre o mundo de vocês.

-- Sabe Marcos – disse isso com as pernas cruzadas e as mãos no joelho entrelaçadas pelos dedos – eu acho muito interessante um pensamento de Sócrates, o filósofo grego e não o jogador, que diz uma vida que não é examinada não vale a pena ser vivida e ultimamente estou repensando por causa do livro que me fez enxergar uma outra realidade, uma outra visão de mundo e o que quero da minha vida. Por exemplo, eu esperei 22 anos da minha vida para nesse exato momento você sentar na beirada da minha cama e compartilhar seu conhecimento comigo e eu compartilhar o meu com você. Por que? Assim é o livro O Caminho. Será que estamos aqui por um proposito?

-- Sou cético e além de tudo, ateu – disse isso eufórico – mas não tenho uma mente totalmente fechada dentro do que acho ser a verdade, porque a verdade não existe. Há questões além do mundo, além da moral, que estão além do horizonte da nossa realidade, mas não acredito nisso Alice e acho que não faz sentido, pelo menos, para mim.

Dona Clara que era a coordenadora da instituição chega com um sorriso. Não era tão senhora, tinha seus 40 anos de idade e sabia muito bem quem era Alice porque era as poucas que tinha estudo lá. Mas Dona Clara não diferenciava porque achava que deveria tratar todos por igual, mesmo que isso não seja verdade, ninguém era igual do que ninguém.

-- Marcos! Então, encontrou nossa paciente mais inteligente da instituição e que sabe ler como ninguém? Alice é das nossas pacientes que ajudam também, mas temos uma política de sempre deixar eles aqui no quarto para melhor ter o controle. Não é que não podem conversar, mas temos medo que os pais impliquem, pois tem a subproteção que é muito forte ainda. Venha conhecer as outras estalagens e a instituição por inteiro.

 Marcos se despediu de Alice e saiu com dona Clara, mas mesmo acenando e vendo os outros departamentos, não parou de pensar naquilo que conversou com Alice e continuou esses pensamentos continuaram. Será mesmo que aquilo era mesmo para acontecer? Será que o universo tem parte nisso? Ele aprendeu na universidade que a filosofia tinha surgido como uma “destruidora” de mitos e lendas, pois deveria haver evidencias daquilo que chamou de realidade. De repente se deu conta que havia aquelas pessoas com toda aquela limitação – como há na sociedade esse estereotipo – trancadas numa instituição e sem o porquê de tudo aquilo. Sem um motivo aparente.

-- Dona Clara, por que eles estão aqui? – Perguntou como se tivesse um súbito de consciência após ter ficado em transe.

-- Na sua maioria são pacientes que chegam sem tratamento ou porque a família não tem condições financeiras, ou porque não tem tempo de se dedicar ao tratamento dessas pobres almas – falou seria como se tivesse contando uma grande suplica – mas acredito que fazemos um grande trabalho humanitário aqui.

Marcos sabia que tudo aquilo era mentira, mas se esforçou para fingir que tinha acreditado na história da jovem senhora que apenas, num súbito olhar, deu um sorriso de convencimento e continuaram o trajeto.


CONTINUA;;;



Monday, February 22, 2016

A CADEIRA DE RODA – A VERDADE DOS FATOS!




A Menina da cadeira de rodas e os fatos:
Sempre via aquele rapaz passando com suas camisas xadrez e aquele penteado black power como se ele fosse americano, mas ele era um mulato brasileiro mesmo. Quem ele pensa que é por achar que com esse penteado alguém iria se apaixonar por ele? Aliás, nem dei autorização para esse homem fazer uma música com a situação que eu me encontrava, é lamentável que tais pessoas têm esses disparates de achar que estou apaixonada ou não por ele. Mas deve ser patológico, porque só depois que estourou aquela música chata e patética que me fez vomitar mais que cachorro envenenado, eu descobrir o nome daquele homem que sempre passava com aquela cara de galã, e o pior, ainda achava que toda garota que chorava era por ele. Será que Freud explica?
Por falar em Freud, ele já dizia que as pessoas têm traumas profundos dentro de uma condição onde são submetidas, lógico que esse moço era um traumatizado, porque seu ego era inflado porque sempre era chamado de patinho feio da família. Sério! Todo mundo do bairro sabia que seu pai era bêbado e sua mãe ficava por aí dentro das casas e misteriosamente, saia de manhã como se nada tivesse acontecido. Se eu fosse ele, quem choraria era o gajo, porque sempre se metia em brigas e sempre achava que poderia ser um cantor. Era um metido a Roberto Carlos que achava que era cantor e eu não chorava por ele, nem conhecia o distinto para acabar com a conversa. Então, resolvi contar a verdade dos fatos honrando os meus cabelos grisalhos e minha cadeira de rodas que ganhei do SUS e que é uma porcaria de segunda mão.
Sempre vivi naquela casa onde morava meus pais e minha avó, porque nasci sem nenhuma possibilidade de andar por consequências diversas e a pobreza que assombra a nossa condição e é a maior parte, a maior dessas causas. Hoje há várias pesquisas sobre as deficiências, mas naquele tempo, onde havia uma ditadura militar, nós éramos jogados em instituições que não eram boas ou ruins, mas o tratamento era primitivo por causa da demora de entrar novas tecnologias que possibilitassem um maior tratamento mais eficaz. O que havia era piedade como todo religioso tem das pessoas com deficiência, uma imagem de que somos inúteis e éramos expurgados da sociedade. Eu era uma mocinha bonita, e no tempo que o moço fez a música, me encontrava com meus 17 para 18 anos, então meu corpo não diferenciava muito dos das outras moças. O que diferenciava era a minha cadeira de rodas, que tantos idiotas pensam ser um martírio, mas só é uma limitação. Na verdade, nunca me senti uma inútil, porque sempre tinha alguém atrás de mim e não sou uma analfabeta porque estudei, li, e sempre me informei. Na época eu me lembro de está namorando um garoto metido a punk, era louco e as vezes me levava a loucura, porque era doidão e fazia loucuras comigo. Então, não demorou muito ele morreu capotando o carro num racha, porque estava drogado. Era um imbecil retardado! Por que se matou daquele jeito?
Bom, eu era uma mocinha de cadeira de rodas que tinha aparência de toda mocinha da época, tinha aparência e minhas roupas chamavam atenção. Claro que meu pai tinha um certo ciúmes como todo pai, mas ele era uma exceção a regra daqueles tempos de ultraconservadorismo descabido que só serviu e sempre serve, para atrasar certos desenvolvimentos que não são vistos. Então, meu pai que Deus o tenha, era um homem que acreditava que todo ser humano tinha seu potencial e nunca desacreditou em mim, mas tinha seu ciúme por causa de minhas blusinhas decotadas porque sempre fui “avantajada” e talvez, por acreditar na liberdade poética, não tenha dado um soco na cara daquele imbecil que fez aquela música. Eu era uma mocinha que depois de muitos anos, casei e tive minha família, sim, tive minha família e tenho filhos lindos num tempo que éramos trancados dentro de nossas casas. Naquele tempo era raro um pai pensar e agir como o meu, um ser iluminado que deixava eu ficar na porta e as vezes, chorava que minha avó estava doente. Vocês acham que eu iria chorar por causa de homem? Ainda mais esse ser que nada me trazia, a não ser, essa música desajustada?
Bom, eu não me esqueço no dia que ele encrencou que queria me dar flores. Por que? Porque me via chorar e pensava que estava apaixonada por ele, como só houvesse ele para chorar. Joguei o buque de flores em sua cara e disse que na próxima vez iria falar com meu namorado punk que era loucão, mas o cara era meio bunda-mole, sumiu por uma semana. Só que esse tipo de cara metido a galã e adorava se sentir do “naipe” do Roberto Carlos – que se fosse pulava no colo dele e arrancava a perna dele de tanto...hummm...deixa pra lá – nunca desistia e o imundo fazia coisas que só Deus sabia o quanto me punha na vergonha. Pensa que olhava minhas lagrimas de tristeza da minha vozinha? De jeito nenhum! Ele ficava olhando minha camiseta atrás do muro com movimentos estranhos, e quando perguntava “o que você está fazendo? ” Respondia com uma voz tremula e ofegante “Nada!”. Por isso que vocês suspiram e pensam que aquela música é de amor? Pode ser de outra coisa, mas de amor, jamais!

Bom, depois minha vozinha foi para o céu e parei de chorar, lia livros, ficava vendo a rua e as vezes saia, fiquei noiva e casei. Foi que ouvi essa porcaria e me indignei, mas, nunca achei meios para entrar contra esse canalha...vou ali comprar meu pão e não falarei mais. Adeus!

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>O CAMINHO<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<