Wednesday, February 24, 2016

O professor e a cadeirante




1º PARTE

Marcos era um professor de filosofia recém-formado e tinha o ideal a seguir. Sabia sobre a história da filosofia e junto com o conhecimento, mas não tinha a sabedoria de buscar o saber, apenas tinha a “amizade” pelo saber e a essência desse saber. Estudava muito a origem do mal, a origem do bem e todo pilar moral social que o mundo estava inserido e o porquê o ser humano pode estar rumando para o fim do mundo. Era mais um pessimista, por outro lado, era um humanista que achava que deveríamos todos ajudar a humanidade a crescer um pouco, mesmo ela (a humanidade), rumar pelo seu colapso.

Naquela manhã rumava a uma instituição de pessoas com deficiência que ficava perto do apartamento dos seus pais, não tinha ideia o que iria encontrar ali, mas tinha a certeza que nas horas vagas ele iria ser voluntario dessa instituição. Na sua visão – como na maioria das pessoas – aquelas pessoas eram sofredoras eternas que não sabiam nem o que estavam falando, era uma visão de uma pessoa que não convive diretamente com os deficientes. A um tempo atrás, já teria acertado em ser voluntario dessa instituição e não iria desistir tão fácil de levar conforto a algumas pessoas que ali estavam internadas. Ao andar no corredor – seu jeito jovem vestindo camisa xadrez vermelha e uma bermuda creme com meia e tênis – chamava a atenção de quem passava porque aqueles deficientes, não viam outra coisa além de tudo igual, os jalecos dos médicos e funcionários que trabalhavam ali. Na maioria são pessoas cuja a família não tinha condições para cuidar e alimentar aqueles seres humanos que nasceram assim, ou por uma fatalidade da vida, tiveram um acidente ou doença que o deixaram assim. Mas outros casos, que havia alguma internação, era por aparências porque a família não queria expor uma pessoa deficiente na família.

Continuando a caminhar no corredor, o rapaz olhou uma porta semiaberta que ali dentro estava uma cadeira de rodas de costas. Mas pode ver suas mãos delicadas em um livro, seus cabelos castanhos faziam o caminho do acento das costas da cadeira e sua pele claro, podia ser vista por onde quase entrou e teve medo de entrar, mas mesmo assim, bateu na porta para ver melhor aquela visão que o tinha hipnotizado:

-- Olá – disse Marcos com um sorriso sincero – sou o novo voluntario da instituição e estava passando aqui e vi você sozinha no quarto... – parou por uns instantes porque teve a sensação que estava invadindo o quarto da moça. Quando ele ia saindo todo sem graça a moça virou com sua cadeira de rodas e soltou um sorriso e pode ver seu rosto com seus olhos castanhos esverdeados e seus olhos puxadinhos.

-- Oi, não vimos muitos voluntários aqui na instituição e aqui não passa muitas coisas diferentes. Passo o dia lendo ou escutando música e não tenho muito o que fazer, meus pais me colocaram aqui e aqui estou eu lendo. – Marcos sentou na beirada da cama e começou a ouvi o que dizia a mocinha que num lapso, começou a viajar nas suas palavras.

-- Sou Marcos e sou professor recém-formado em filosofia e sempre via essa instituição e ficava pensando como poderia estar ajudando vocês de alguma maneira. Qual seu nome?

-- Me chamo Alice e estou aqui dês de quando me conheço como gente, meus pais me levam para passear, mas sempre volto aqui e fico aqui lendo. Estudei. Mas não sai daqui nunca, não sei como é o mundo lá fora, mas pelos livros acho que tenho uma ideia como o mundo é.

-- O Caminho – Marcos olhou o nome do livro – título sugestivo, mas nunca ouvi falar do autor. Mas parece bom.

-- Gosto dos diálogos do casal onde contém muitas coisas filosóficas sobre a realidade e destino, aliás, poucas coisas me trazem prazer do que ler coisas ocultas e pensamentos críticos. O autor fez muito bem reunir um livro sobre a inclusão de pessoas com deficiência e os vários assuntos universais que não estamos isentos. Acho que vou seguir a carreira de escritora e escrever assim, mostrando que não somos alienados do mundo, mas somos amordaçados por certas instituições de deficientes e várias religiosas.

-- Nossa! Pensava que vocês não podiam nem ler e nem pensar, sem ofender – ele deu um sorrisse sincero para Alice que devolveu sem nenhum sinal de ter ficado nervosa – mas é isso que pensamos quando vimos programas de TV que mostram a dependência dos deficientes. Achei interessante...depois você pode me emprestar? Acho que vou procurar o site e comprar um também, pois quero aprender muito sobre o mundo de vocês.

-- Sabe Marcos – disse isso com as pernas cruzadas e as mãos no joelho entrelaçadas pelos dedos – eu acho muito interessante um pensamento de Sócrates, o filósofo grego e não o jogador, que diz uma vida que não é examinada não vale a pena ser vivida e ultimamente estou repensando por causa do livro que me fez enxergar uma outra realidade, uma outra visão de mundo e o que quero da minha vida. Por exemplo, eu esperei 22 anos da minha vida para nesse exato momento você sentar na beirada da minha cama e compartilhar seu conhecimento comigo e eu compartilhar o meu com você. Por que? Assim é o livro O Caminho. Será que estamos aqui por um proposito?

-- Sou cético e além de tudo, ateu – disse isso eufórico – mas não tenho uma mente totalmente fechada dentro do que acho ser a verdade, porque a verdade não existe. Há questões além do mundo, além da moral, que estão além do horizonte da nossa realidade, mas não acredito nisso Alice e acho que não faz sentido, pelo menos, para mim.

Dona Clara que era a coordenadora da instituição chega com um sorriso. Não era tão senhora, tinha seus 40 anos de idade e sabia muito bem quem era Alice porque era as poucas que tinha estudo lá. Mas Dona Clara não diferenciava porque achava que deveria tratar todos por igual, mesmo que isso não seja verdade, ninguém era igual do que ninguém.

-- Marcos! Então, encontrou nossa paciente mais inteligente da instituição e que sabe ler como ninguém? Alice é das nossas pacientes que ajudam também, mas temos uma política de sempre deixar eles aqui no quarto para melhor ter o controle. Não é que não podem conversar, mas temos medo que os pais impliquem, pois tem a subproteção que é muito forte ainda. Venha conhecer as outras estalagens e a instituição por inteiro.

 Marcos se despediu de Alice e saiu com dona Clara, mas mesmo acenando e vendo os outros departamentos, não parou de pensar naquilo que conversou com Alice e continuou esses pensamentos continuaram. Será mesmo que aquilo era mesmo para acontecer? Será que o universo tem parte nisso? Ele aprendeu na universidade que a filosofia tinha surgido como uma “destruidora” de mitos e lendas, pois deveria haver evidencias daquilo que chamou de realidade. De repente se deu conta que havia aquelas pessoas com toda aquela limitação – como há na sociedade esse estereotipo – trancadas numa instituição e sem o porquê de tudo aquilo. Sem um motivo aparente.

-- Dona Clara, por que eles estão aqui? – Perguntou como se tivesse um súbito de consciência após ter ficado em transe.

-- Na sua maioria são pacientes que chegam sem tratamento ou porque a família não tem condições financeiras, ou porque não tem tempo de se dedicar ao tratamento dessas pobres almas – falou seria como se tivesse contando uma grande suplica – mas acredito que fazemos um grande trabalho humanitário aqui.

Marcos sabia que tudo aquilo era mentira, mas se esforçou para fingir que tinha acreditado na história da jovem senhora que apenas, num súbito olhar, deu um sorriso de convencimento e continuaram o trajeto.


CONTINUA;;;



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