A Menina da cadeira de rodas e os
fatos:
Sempre via aquele rapaz passando com
suas camisas xadrez e aquele penteado black power como se ele fosse americano,
mas ele era um mulato brasileiro mesmo. Quem ele pensa que é por achar que com
esse penteado alguém iria se apaixonar por ele? Aliás, nem dei autorização para
esse homem fazer uma música com a situação que eu me encontrava, é lamentável
que tais pessoas têm esses disparates de achar que estou apaixonada ou não por
ele. Mas deve ser patológico, porque só depois que estourou aquela música chata
e patética que me fez vomitar mais que cachorro envenenado, eu descobrir o nome
daquele homem que sempre passava com aquela cara de galã, e o pior, ainda
achava que toda garota que chorava era por ele. Será que Freud explica?
Por falar em Freud, ele já dizia que as
pessoas têm traumas profundos dentro de uma condição onde são submetidas,
lógico que esse moço era um traumatizado, porque seu ego era inflado porque
sempre era chamado de patinho feio da família. Sério! Todo mundo do bairro
sabia que seu pai era bêbado e sua mãe ficava por aí dentro das casas e
misteriosamente, saia de manhã como se nada tivesse acontecido. Se eu fosse
ele, quem choraria era o gajo, porque sempre se metia em brigas e sempre achava
que poderia ser um cantor. Era um metido a Roberto Carlos que achava que era
cantor e eu não chorava por ele, nem conhecia o distinto para acabar com a
conversa. Então, resolvi contar a verdade dos fatos honrando os meus cabelos
grisalhos e minha cadeira de rodas que ganhei do SUS e que é uma porcaria de
segunda mão.
Sempre vivi naquela casa onde morava
meus pais e minha avó, porque nasci sem nenhuma possibilidade de andar por
consequências diversas e a pobreza que assombra a nossa condição e é a maior
parte, a maior dessas causas. Hoje há várias pesquisas sobre as deficiências,
mas naquele tempo, onde havia uma ditadura militar, nós éramos jogados em
instituições que não eram boas ou ruins, mas o tratamento era primitivo por
causa da demora de entrar novas tecnologias que possibilitassem um maior
tratamento mais eficaz. O que havia era piedade como todo religioso tem das
pessoas com deficiência, uma imagem de que somos inúteis e éramos expurgados da
sociedade. Eu era uma mocinha bonita, e no tempo que o moço fez a música, me
encontrava com meus 17 para 18 anos, então meu corpo não diferenciava muito dos
das outras moças. O que diferenciava era a minha cadeira de rodas, que tantos
idiotas pensam ser um martírio, mas só é uma limitação. Na verdade, nunca me
senti uma inútil, porque sempre tinha alguém atrás de mim e não sou uma
analfabeta porque estudei, li, e sempre me informei. Na época eu me lembro de
está namorando um garoto metido a punk, era louco e as vezes me levava a
loucura, porque era doidão e fazia loucuras comigo. Então, não demorou muito
ele morreu capotando o carro num racha, porque estava drogado. Era um imbecil
retardado! Por que se matou daquele jeito?
Bom, eu era uma mocinha de cadeira de
rodas que tinha aparência de toda mocinha da época, tinha aparência e minhas
roupas chamavam atenção. Claro que meu pai tinha um certo ciúmes como todo pai,
mas ele era uma exceção a regra daqueles tempos de ultraconservadorismo
descabido que só serviu e sempre serve, para atrasar certos desenvolvimentos
que não são vistos. Então, meu pai que Deus o tenha, era um homem que
acreditava que todo ser humano tinha seu potencial e nunca desacreditou em mim,
mas tinha seu ciúme por causa de minhas blusinhas decotadas porque sempre fui
“avantajada” e talvez, por acreditar na liberdade poética, não tenha dado um
soco na cara daquele imbecil que fez aquela música. Eu era uma mocinha que
depois de muitos anos, casei e tive minha família, sim, tive minha família e
tenho filhos lindos num tempo que éramos trancados dentro de nossas casas.
Naquele tempo era raro um pai pensar e agir como o meu, um ser iluminado que
deixava eu ficar na porta e as vezes, chorava que minha avó estava doente.
Vocês acham que eu iria chorar por causa de homem? Ainda mais esse ser que nada
me trazia, a não ser, essa música desajustada?
Bom, eu não me esqueço no dia que ele
encrencou que queria me dar flores. Por que? Porque me via chorar e pensava que
estava apaixonada por ele, como só houvesse ele para chorar. Joguei o buque de
flores em sua cara e disse que na próxima vez iria falar com meu namorado punk
que era loucão, mas o cara era meio bunda-mole, sumiu por uma semana. Só que
esse tipo de cara metido a galã e adorava se sentir do “naipe” do Roberto
Carlos – que se fosse pulava no colo dele e arrancava a perna dele de
tanto...hummm...deixa pra lá – nunca desistia e o imundo fazia coisas que só
Deus sabia o quanto me punha na vergonha. Pensa que olhava minhas lagrimas de
tristeza da minha vozinha? De jeito nenhum! Ele ficava olhando minha camiseta
atrás do muro com movimentos estranhos, e quando perguntava “o que você está fazendo?
” Respondia com uma voz tremula e ofegante “Nada!”. Por isso que vocês suspiram
e pensam que aquela música é de amor? Pode ser de outra coisa, mas de amor,
jamais!
Bom, depois minha vozinha foi para o
céu e parei de chorar, lia livros, ficava vendo a rua e as vezes saia, fiquei noiva
e casei. Foi que ouvi essa porcaria e me indignei, mas, nunca achei meios para
entrar contra esse canalha...vou ali comprar meu pão e não falarei mais. Adeus!
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>O CAMINHO<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<

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