Friday, February 26, 2016

O professor e a cadeirante (2º PARTE)







2º PARTE

Marcos tinha pensado naquela conversa dês de então e resolveu pesquisar sobre as pessoas com deficiência que lhe despertou a curiosidade e nessas pesquisas ele encontrou muitas curiosidades. Então digitou “DEUSES DEFICIENTES” apareceu muito material curioso, como que os gregos clássicos matavam os “defeituosos”,  os deficientes tinham tido uma existência da história humana como se fossem animais sem alma, maldição dos deuses ou mais ressente, por termos uma cultura conservadora, tratados como “crianças eternas”.

Mas leu que havia um deus coxo grego que tinha o nome de Hefesto. Hefesto, ou em latim Vulcano, era o deus do trabalho e da metalúrgica é rejeitado pela mãe Hera, por ser coxo, foi jogado do Monte Olimpo na ilha de Lemmos e foi criado por nereidas Tétis e Eurínome. O deus tinha grande habilidade para a forja e com isso, escondido, forjou o trono do seu pai Zeus com várias armadilhas para o mesmo ter que o soltar e foi isso que fez, sendo dês de então, os doses deuses olimpianos. Marcos então se entregou em seus pensamentos: “Não me surpreende terem tantas instituições que cuidam dessas pessoas, pois nossa sociedade ainda conservadora, enxerga como crianças eternas”.

Mas a pesquisa não parou e continuou mais e digitou “superação” eis que apareceu só atletas paraolímpicos que são um meio, mas não são a única opção para a inclusão das pessoas com deficiência. Daí começou a pensar: “Será que existe uma padronização do que as pessoas pensam em superar? Será que há um estereotipo ditado dentro da sociedade para definir o que é ou não “superar?”. Eis grandes questões que não estão excluídas dentro da moral ou dentro de nenhum pensamento sobre a ética, porque além de temos um estereotipo definido – como se não pudéssemos ter outro pensamento muito mais abrangente – e não se poderia ter outros. Foucault teria esse foco como um discurso do poder, um discurso que o poder colocaria como algo para dominar.

Já tinha dado 10: 00 horas da manhã e teria que ir dar aula na escola que era professor substituto de filosofia, porque o titular teve que se afastar por motivos de saúde. Dentro do carro ouvindo se rock de sempre ficava pensando o que seria tudo aquilo, o que seria a realidade e porque pessoas nasciam com deficiência e o porquê eram tão largadas sem um tratamento adequado. Mas existiam pessoas como Alice, inteligentes e sabiam se comunicar que tinham algo a nos passar, eram raras exceções num mundo obscuro por estereótipos da sociedade.

Na sala de aula, Marcos tinha uma postura calma e muito tranquila, pois dês de quando entrou, não teve problemas com os alunos. Sentado já na mesa viu um aluno levantar a mão para fazer uma pergunta e Marcos consentiu, porque sempre pensava que na filosofia o aluno tinha que ter no mínimo, liberdade para perguntar:

-- Professor, será que Deus existe mesmo? Porque vejo tantas coisas como pessoas morrendo, pessoas nascem com defeitos, pessoas andam de cadeira de rodas que até fico em dúvida se existe mesmo.

-- Não sei. Só sei das perguntas que poderíamos perguntar a um religioso que segue os ritos desse Deus. Chegamos num ponto muito mais moral do que religioso, não que a religião não tenha sua moral, mas existe uma ética acima disso muito interessante. Existem pessoas que tomam um tiro de um assaltante ou uma bala perdida, vimos isso muito nos noticiários, e fica paraplégica, ou tetraplégica, ou enfim, numa cadeira de rodas. Existem vários fatos que culminaram nisso: 1, é a questão da segurança pública que é uma questão de o executivo votar leis para melhor garantir isso. 2, é questão da desigualdade gritante que vive nosso país e isso cria uma expectativa, que é errada, que o crime pode garantir a sobrevivência do indivíduo. 3, é a questão da educação que não garante que o indivíduo aprenda que só garantindo honestamente o seu sustento é que garante sua paz, sua liberdade e respeito pela vida humana. Ora, não sabemos se Deus existe ou não, mas sabemos que cada ser humano pode fazer escolhas e essas escolhas são dentro dos seus valores morais que aprenderam.

-- Mas professor e quem, por exemplo, nasce com uma deficiência? Quem contem doenças como o câncer?

-- Espera aí, Tiago...existe duas questões interessantes dentro dessa mesma questão. O que pode desencadear uma deficiência? Coincidência ou não, nessa manhã estava eu fazendo algumas pesquisas e achei um material importante dentro da questão da deficiência, pois sou voluntario dentro de uma instituição. Na Grécia clássica, com todo aquele conhecimento e de certa forma, uma cultura elevada para a época, se matava pessoas com certas limitações por questões práticas. Pode nos ser cruel, mas é bastante plausível na época, pois numa eventual fuga, muito dessas pessoas iriam atrasar essa fuga. Mesmo assim, há uma lenda de um deus dos trabalhadores e da metalúrgica que era coxo, esse deus chama Hefesto, que era coxo. Ora, ao mesmo tempo que os gregos clássicos matavam as pessoas com deficiência, deu a um deus olímpico a limitação de uma perna. Entende? Isso são coisas muito mais relacionadas com a moral do que relacionadas com a parte religiosa da questão, porque hoje uma criança nasce doente ou deficiente, ela tem os mesmos direitos do que qualquer cidadão da humanidade e existem tratamento para isso.

Ele levantou e sentou na mesa para os alunos melhor vê-lo falando e continuou:

-- Existe um fator humano nessas duas situações, embora existam pessoas que acreditam que é escolha da alma ou é uma prova de fé dos pais e por aí vai, que fara com que muitas crianças nasçam com alguma deficiência qualquer ou até, nasça com câncer. Existe a pobreza, que ficam dependentes de um serviço médico ou hospitalar do governo de segunda qualidade. Existe fatores genéticos que podem também culminar em uma deficiência, ou fatores de doenças ou produtos tóxicos. Isso também pode ser uma das causas do câncer e assim caminha a humanidade. A questão trazida pelo nosso colega Tiago é uma questão completamente, moral para o bem ou o mal e se isso implica na existência ou não de Deus. Mas aí vou muito mais a fundo: se Deus existir, ele com sua onisciência, criou ou mal? E se o bem e o mal nada tem a ver do que observamos como atitudes e o que percebemos? A deficiência pode ser uma limitação, mas pode não limitar a felicidade, como alguns tipos de câncer ter tratamento, é uma questão de visão. Mesmo eu sendo um cara cético, eu não costumo ter uma mente fechada e sempre questiono tanto a religião, quanto as ditas descobertas cientificas, principalmente, quando essas descobertas têm a ver com nossa vida cotidiana. Podemos analisar uma coisa, uma deficiência não depende da existência ou não de Deus, mas a existência ou não da ética. Por que da ética? O ESTADO como tal, não dá garantias de um tratamento digno para todos, o ESTADO não garante que as pessoas sejam informadas sobre isso, o ESTADO não dará tratamento adequado a essas pessoas e isso, muitas vezes, fica a cargo de instituições pouco preocupam com a questão. É ou não moral Tiago? O que você acha disso?

-- Acho professor que a questão que você traz é interessante, mas acho que tem muito a ver a religião que cega as pessoas como o cientista Richard Dawkins diz nos seus livros – Marcos mesmo cético não gostava de fundamentalistas de nenhum dos lados.

-- Você sabia Tiago, que esse mesmo cientista dito biólogo, disse que é imoral a mulher ter um filho com síndrome de down? – Tiago fez com a cabeça um sinal de negativo – Pois é, esse tipo de sujeito seduz muito fácil, pessoas como você, um garoto, e fundamenta uma ideia muito agradável. Porém, nem sabe o que está dizendo, pois, o problema das guerras não é a religião, mas interesses econômicos que usam a religião como uns dos pontos, outro ponto é o nacionalismo que dês do tempo de Jesus, até antes, existem na região. Continua.

-- Se Deus existe, ele como senso bom, não deveria deixar nascer crianças com deficiência ou com doenças, talvez nem exista. – então, Marcos levantou e olhou para a classe e perguntou para a classe:

-- Mais alguém quer expressar a opinião sobre? Gostaria que alguém que acredita veemente em Deus possa refutar Tiago. – Uma aluna com cabelos compridos e uma saia comprida levantou a mão. Marcos fez um gesto com a mão para a menina levantar e falar.

-- Mas o próprio professor disse que não tem muito a ver com a existência ou não de Deus ter crianças com deficiência, é uma questão de visão como poderíamos enxergar essa opinião. Eu acredito que tudo tem um proposito e esse proposito tem a ver com a criação, tudo se fez dentro da vontade de Deus e ele enxerga tudo e vê tudo.

-- Ótimo Natália – disse Marcos com entusiasmo, pois o assunto fluía – resta saber, se esse Deus enxerga tudo, não poderia prever, por exemplo, chacinas ou matanças como o nazismo fez? Ou todas as guerras que houveram dentro do oriente médio?

-- Ah, professor...acredito que Deus deu todas as escolhas possíveis a humanidade.

-- Ótimo! Quero para sexta uma redação sobre isso na minha mesa e terá no mínimo uma folha e no máximo quantas folhas quiserem. Nada de meia folha.

Todos saíram e a aula acabou. Marcos ficou pensativo por tudo que foi falado, talvez, poderia ter uma conversa dessas com Alice.


CONTINUA 






Wednesday, February 24, 2016

O professor e a cadeirante




1º PARTE

Marcos era um professor de filosofia recém-formado e tinha o ideal a seguir. Sabia sobre a história da filosofia e junto com o conhecimento, mas não tinha a sabedoria de buscar o saber, apenas tinha a “amizade” pelo saber e a essência desse saber. Estudava muito a origem do mal, a origem do bem e todo pilar moral social que o mundo estava inserido e o porquê o ser humano pode estar rumando para o fim do mundo. Era mais um pessimista, por outro lado, era um humanista que achava que deveríamos todos ajudar a humanidade a crescer um pouco, mesmo ela (a humanidade), rumar pelo seu colapso.

Naquela manhã rumava a uma instituição de pessoas com deficiência que ficava perto do apartamento dos seus pais, não tinha ideia o que iria encontrar ali, mas tinha a certeza que nas horas vagas ele iria ser voluntario dessa instituição. Na sua visão – como na maioria das pessoas – aquelas pessoas eram sofredoras eternas que não sabiam nem o que estavam falando, era uma visão de uma pessoa que não convive diretamente com os deficientes. A um tempo atrás, já teria acertado em ser voluntario dessa instituição e não iria desistir tão fácil de levar conforto a algumas pessoas que ali estavam internadas. Ao andar no corredor – seu jeito jovem vestindo camisa xadrez vermelha e uma bermuda creme com meia e tênis – chamava a atenção de quem passava porque aqueles deficientes, não viam outra coisa além de tudo igual, os jalecos dos médicos e funcionários que trabalhavam ali. Na maioria são pessoas cuja a família não tinha condições para cuidar e alimentar aqueles seres humanos que nasceram assim, ou por uma fatalidade da vida, tiveram um acidente ou doença que o deixaram assim. Mas outros casos, que havia alguma internação, era por aparências porque a família não queria expor uma pessoa deficiente na família.

Continuando a caminhar no corredor, o rapaz olhou uma porta semiaberta que ali dentro estava uma cadeira de rodas de costas. Mas pode ver suas mãos delicadas em um livro, seus cabelos castanhos faziam o caminho do acento das costas da cadeira e sua pele claro, podia ser vista por onde quase entrou e teve medo de entrar, mas mesmo assim, bateu na porta para ver melhor aquela visão que o tinha hipnotizado:

-- Olá – disse Marcos com um sorriso sincero – sou o novo voluntario da instituição e estava passando aqui e vi você sozinha no quarto... – parou por uns instantes porque teve a sensação que estava invadindo o quarto da moça. Quando ele ia saindo todo sem graça a moça virou com sua cadeira de rodas e soltou um sorriso e pode ver seu rosto com seus olhos castanhos esverdeados e seus olhos puxadinhos.

-- Oi, não vimos muitos voluntários aqui na instituição e aqui não passa muitas coisas diferentes. Passo o dia lendo ou escutando música e não tenho muito o que fazer, meus pais me colocaram aqui e aqui estou eu lendo. – Marcos sentou na beirada da cama e começou a ouvi o que dizia a mocinha que num lapso, começou a viajar nas suas palavras.

-- Sou Marcos e sou professor recém-formado em filosofia e sempre via essa instituição e ficava pensando como poderia estar ajudando vocês de alguma maneira. Qual seu nome?

-- Me chamo Alice e estou aqui dês de quando me conheço como gente, meus pais me levam para passear, mas sempre volto aqui e fico aqui lendo. Estudei. Mas não sai daqui nunca, não sei como é o mundo lá fora, mas pelos livros acho que tenho uma ideia como o mundo é.

-- O Caminho – Marcos olhou o nome do livro – título sugestivo, mas nunca ouvi falar do autor. Mas parece bom.

-- Gosto dos diálogos do casal onde contém muitas coisas filosóficas sobre a realidade e destino, aliás, poucas coisas me trazem prazer do que ler coisas ocultas e pensamentos críticos. O autor fez muito bem reunir um livro sobre a inclusão de pessoas com deficiência e os vários assuntos universais que não estamos isentos. Acho que vou seguir a carreira de escritora e escrever assim, mostrando que não somos alienados do mundo, mas somos amordaçados por certas instituições de deficientes e várias religiosas.

-- Nossa! Pensava que vocês não podiam nem ler e nem pensar, sem ofender – ele deu um sorrisse sincero para Alice que devolveu sem nenhum sinal de ter ficado nervosa – mas é isso que pensamos quando vimos programas de TV que mostram a dependência dos deficientes. Achei interessante...depois você pode me emprestar? Acho que vou procurar o site e comprar um também, pois quero aprender muito sobre o mundo de vocês.

-- Sabe Marcos – disse isso com as pernas cruzadas e as mãos no joelho entrelaçadas pelos dedos – eu acho muito interessante um pensamento de Sócrates, o filósofo grego e não o jogador, que diz uma vida que não é examinada não vale a pena ser vivida e ultimamente estou repensando por causa do livro que me fez enxergar uma outra realidade, uma outra visão de mundo e o que quero da minha vida. Por exemplo, eu esperei 22 anos da minha vida para nesse exato momento você sentar na beirada da minha cama e compartilhar seu conhecimento comigo e eu compartilhar o meu com você. Por que? Assim é o livro O Caminho. Será que estamos aqui por um proposito?

-- Sou cético e além de tudo, ateu – disse isso eufórico – mas não tenho uma mente totalmente fechada dentro do que acho ser a verdade, porque a verdade não existe. Há questões além do mundo, além da moral, que estão além do horizonte da nossa realidade, mas não acredito nisso Alice e acho que não faz sentido, pelo menos, para mim.

Dona Clara que era a coordenadora da instituição chega com um sorriso. Não era tão senhora, tinha seus 40 anos de idade e sabia muito bem quem era Alice porque era as poucas que tinha estudo lá. Mas Dona Clara não diferenciava porque achava que deveria tratar todos por igual, mesmo que isso não seja verdade, ninguém era igual do que ninguém.

-- Marcos! Então, encontrou nossa paciente mais inteligente da instituição e que sabe ler como ninguém? Alice é das nossas pacientes que ajudam também, mas temos uma política de sempre deixar eles aqui no quarto para melhor ter o controle. Não é que não podem conversar, mas temos medo que os pais impliquem, pois tem a subproteção que é muito forte ainda. Venha conhecer as outras estalagens e a instituição por inteiro.

 Marcos se despediu de Alice e saiu com dona Clara, mas mesmo acenando e vendo os outros departamentos, não parou de pensar naquilo que conversou com Alice e continuou esses pensamentos continuaram. Será mesmo que aquilo era mesmo para acontecer? Será que o universo tem parte nisso? Ele aprendeu na universidade que a filosofia tinha surgido como uma “destruidora” de mitos e lendas, pois deveria haver evidencias daquilo que chamou de realidade. De repente se deu conta que havia aquelas pessoas com toda aquela limitação – como há na sociedade esse estereotipo – trancadas numa instituição e sem o porquê de tudo aquilo. Sem um motivo aparente.

-- Dona Clara, por que eles estão aqui? – Perguntou como se tivesse um súbito de consciência após ter ficado em transe.

-- Na sua maioria são pacientes que chegam sem tratamento ou porque a família não tem condições financeiras, ou porque não tem tempo de se dedicar ao tratamento dessas pobres almas – falou seria como se tivesse contando uma grande suplica – mas acredito que fazemos um grande trabalho humanitário aqui.

Marcos sabia que tudo aquilo era mentira, mas se esforçou para fingir que tinha acreditado na história da jovem senhora que apenas, num súbito olhar, deu um sorriso de convencimento e continuaram o trajeto.


CONTINUA;;;



Monday, February 22, 2016

A CADEIRA DE RODA – A VERDADE DOS FATOS!




A Menina da cadeira de rodas e os fatos:
Sempre via aquele rapaz passando com suas camisas xadrez e aquele penteado black power como se ele fosse americano, mas ele era um mulato brasileiro mesmo. Quem ele pensa que é por achar que com esse penteado alguém iria se apaixonar por ele? Aliás, nem dei autorização para esse homem fazer uma música com a situação que eu me encontrava, é lamentável que tais pessoas têm esses disparates de achar que estou apaixonada ou não por ele. Mas deve ser patológico, porque só depois que estourou aquela música chata e patética que me fez vomitar mais que cachorro envenenado, eu descobrir o nome daquele homem que sempre passava com aquela cara de galã, e o pior, ainda achava que toda garota que chorava era por ele. Será que Freud explica?
Por falar em Freud, ele já dizia que as pessoas têm traumas profundos dentro de uma condição onde são submetidas, lógico que esse moço era um traumatizado, porque seu ego era inflado porque sempre era chamado de patinho feio da família. Sério! Todo mundo do bairro sabia que seu pai era bêbado e sua mãe ficava por aí dentro das casas e misteriosamente, saia de manhã como se nada tivesse acontecido. Se eu fosse ele, quem choraria era o gajo, porque sempre se metia em brigas e sempre achava que poderia ser um cantor. Era um metido a Roberto Carlos que achava que era cantor e eu não chorava por ele, nem conhecia o distinto para acabar com a conversa. Então, resolvi contar a verdade dos fatos honrando os meus cabelos grisalhos e minha cadeira de rodas que ganhei do SUS e que é uma porcaria de segunda mão.
Sempre vivi naquela casa onde morava meus pais e minha avó, porque nasci sem nenhuma possibilidade de andar por consequências diversas e a pobreza que assombra a nossa condição e é a maior parte, a maior dessas causas. Hoje há várias pesquisas sobre as deficiências, mas naquele tempo, onde havia uma ditadura militar, nós éramos jogados em instituições que não eram boas ou ruins, mas o tratamento era primitivo por causa da demora de entrar novas tecnologias que possibilitassem um maior tratamento mais eficaz. O que havia era piedade como todo religioso tem das pessoas com deficiência, uma imagem de que somos inúteis e éramos expurgados da sociedade. Eu era uma mocinha bonita, e no tempo que o moço fez a música, me encontrava com meus 17 para 18 anos, então meu corpo não diferenciava muito dos das outras moças. O que diferenciava era a minha cadeira de rodas, que tantos idiotas pensam ser um martírio, mas só é uma limitação. Na verdade, nunca me senti uma inútil, porque sempre tinha alguém atrás de mim e não sou uma analfabeta porque estudei, li, e sempre me informei. Na época eu me lembro de está namorando um garoto metido a punk, era louco e as vezes me levava a loucura, porque era doidão e fazia loucuras comigo. Então, não demorou muito ele morreu capotando o carro num racha, porque estava drogado. Era um imbecil retardado! Por que se matou daquele jeito?
Bom, eu era uma mocinha de cadeira de rodas que tinha aparência de toda mocinha da época, tinha aparência e minhas roupas chamavam atenção. Claro que meu pai tinha um certo ciúmes como todo pai, mas ele era uma exceção a regra daqueles tempos de ultraconservadorismo descabido que só serviu e sempre serve, para atrasar certos desenvolvimentos que não são vistos. Então, meu pai que Deus o tenha, era um homem que acreditava que todo ser humano tinha seu potencial e nunca desacreditou em mim, mas tinha seu ciúme por causa de minhas blusinhas decotadas porque sempre fui “avantajada” e talvez, por acreditar na liberdade poética, não tenha dado um soco na cara daquele imbecil que fez aquela música. Eu era uma mocinha que depois de muitos anos, casei e tive minha família, sim, tive minha família e tenho filhos lindos num tempo que éramos trancados dentro de nossas casas. Naquele tempo era raro um pai pensar e agir como o meu, um ser iluminado que deixava eu ficar na porta e as vezes, chorava que minha avó estava doente. Vocês acham que eu iria chorar por causa de homem? Ainda mais esse ser que nada me trazia, a não ser, essa música desajustada?
Bom, eu não me esqueço no dia que ele encrencou que queria me dar flores. Por que? Porque me via chorar e pensava que estava apaixonada por ele, como só houvesse ele para chorar. Joguei o buque de flores em sua cara e disse que na próxima vez iria falar com meu namorado punk que era loucão, mas o cara era meio bunda-mole, sumiu por uma semana. Só que esse tipo de cara metido a galã e adorava se sentir do “naipe” do Roberto Carlos – que se fosse pulava no colo dele e arrancava a perna dele de tanto...hummm...deixa pra lá – nunca desistia e o imundo fazia coisas que só Deus sabia o quanto me punha na vergonha. Pensa que olhava minhas lagrimas de tristeza da minha vozinha? De jeito nenhum! Ele ficava olhando minha camiseta atrás do muro com movimentos estranhos, e quando perguntava “o que você está fazendo? ” Respondia com uma voz tremula e ofegante “Nada!”. Por isso que vocês suspiram e pensam que aquela música é de amor? Pode ser de outra coisa, mas de amor, jamais!

Bom, depois minha vozinha foi para o céu e parei de chorar, lia livros, ficava vendo a rua e as vezes saia, fiquei noiva e casei. Foi que ouvi essa porcaria e me indignei, mas, nunca achei meios para entrar contra esse canalha...vou ali comprar meu pão e não falarei mais. Adeus!

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>O CAMINHO<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<